sábado, 17 de maio de 2014



BEIJO-TE AS MÃOS

Hoje quando voltava pra casa eu comecei a pensar no passado. Em coisas que aconteceram quando eu era uma menina e quando já me tornava uma moça.
Pois vou contar aqui o que recordei.
Quando me deitava eu ficava rolando na cama e de meu quarto gritava ao meu pai pedindo a sua benção.
Ele respondia de pronto: -- Deus te abençoe, minha filha.
Depois eu gritava à minha mãe e ela respondia naquela vozinha doce dela.
Muitas vezes eu demorava para adormecer e pedia de novo:
-- A benção, meu pai.
E vinha a resposta. Ele não se zangava de eu ficar insistindo em pedir a benção. Acho que entendia minhas razões. Compreendia que eu necessitava do aconchego.
Em algumas noites eu pedia muitas vezes e eles pacientemente respondiam.
Enquanto estes pensamentos povoam minha cabeça eu senti umas mãos acariciando meus cabelos.
Pode ter sido apenas uma ilusão de meus sentidos, mas senti a proximidade de meu pai.
Ele partiu há tanto tempo. Mais de sete anos.
Senti as mãos deslizando em meus cabelos, fechei os olhos e me deixei levar. As lembranças eram tão suaves e a mão tão gostosamente eu sentia me acariciando.
Permaneci um tempo de olhos fechados, paradinha, quietinha. Nem dei importância ao fato de estar num ônibus.
Tão bom saber que mesmo tendo partido meu pai vive comigo, no meu coração, nas minhas lembranças.
Beijo-te as mãos, meu querido. Eu pensei e fui abrindo os olhos. Percebi que as pessoas conversavam, riam. Aquelas coisas que fazem parte do cotidiano.
Desci do ônibus me sentindo leve, amada. Como naqueles tempos de minha meninice, protegida. O Pai Eterno continua a me abençoar e o meu pai terreno vive em outro lugar, mas nunca deixou de me amar.


sonia delsin

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