SAUDADE DE UM TEMPO MORTO
Hoje,
durante a missa, meus olhos se prenderam na garota que cantava com uma bela voz
os salmos e voei no tempo.
Voltei
àquela época que você cantava na igreja.
Era
pouco que uma menina e tinha uma voz que me tocava. Uma voz que parecia
preencher todos os espaços. Meu coração se enamorou tão logo a conheci.
Eu
me emocionava quando a via cantando e quando conversávamos, porque costumávamos
abrir o coração uma com a outra.
Seus
olhos não se desprendiam dos meus enquanto cantava com o microfone na mão.
Parecia que estava ali pedindo minha aprovação.
Quando
terminava o canto tantas vezes corria pra meus braços. Ficávamos
silenciosamente curtindo uma a outra de mãos dadas.
Parece-me
que se passaram séculos que estes fatos ocorreram, mas não faz tanto tempo
assim. Só alguns anos.
Hoje
você vive tão distante. Mudou-se do país e construiu a sua realidade.
Na
última vez que nos falamos por telefone você comentou que um dia eu lhe escrevi
numa cartinha que muito provavelmente no futuro me esqueceria, porque a vida
nos distanciaria.
Falei
que correria mundo e me esqueceria.
Parecia
ser esta uma profecia e se cumpriu porque você deixou o Brasil aos dezessete
anos e não mais retornou.
Nesta
última conversa você me disse que não me esqueceu. Que eu estava enganada. Que
sempre está pensando em mim, mesmo vivendo longe.
Eu
também a carrego no coração, porque o verdadeiro amor rompe todas as barreiras.
Ele permanece vivo apesar da distância e do tempo.
Enquanto
ouvia a garota cantando me perguntava se de fato este tempo que vivemos é um
tempo morto. Já que o que permanece na lembrança se eterniza.
sonia delsin

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