MEU IPÊ FLORIDO
É
engraçado com às vezes nos surpreendemos com pequenos detalhes.
Nunca
eu sequer havia imaginado qual seria a música predileta de meu pai.
Foi
depois de sua morte que descobri. Minha mãe disse que ele gostava daquela
música: "Meu ipê florido".
Eu
que cresci ouvindo ele assobiar "Silêncio" imaginava que fosse essa
sua música preferida.
Por
que as pessoas não se conversam mais enquanto é tempo? Por que pai você não
procurou ser mais nosso amigo?
Por
que você colocava o tempo todo uma barreira entre nós? Dos quatro filhos acho
que fui ainda a filha que mais se aproximou de você.
Será
que você procurava impor sua autoridade sobre nós para ser mais respeitado. Mas
você era, pai! Como era!
Na
infância nós o temíamos e corríamos para a mãe sempre à procura de defesa. Na
adolescência também vivíamos na retaguarda com você.
Só
depois de mulher feita é que eu descobri que você era capaz de amar e que nos
amava. Do seu modo, do seu modo...
Não
era um amor como eu queria, não era uma relação aberta. Mas como poderia ser se
você não era essa pessoa aberta!
Descobri
nos seus últimos dias de vida a pessoa atormentada que se escondia atrás de uma
expressão sisuda.
Pai,
eu amo você. Sei que de algum lugar você ainda pode ouvir "Meu ipê
florido". Pode ler o que escrevo e pode ver que estou sofrendo com sua
morte.
Gostaria
de ter feito longos passeios com você, gostaria de ter tido longos papos sobre
nós mesmos. Mas é tarde agora, você já se foi.
A
mãe me disse que você sempre achou que seus filhos não o amavam como a amavam,
mas é uma mentira; eu sempre o amei tanto.
Você
foi o meu ídolo em minha infância.
Ouvi
muitos "nãos" de você e naquele tempo não conseguia compreender. Só
depois de ver os meus filhos crescidos é que posso entender o quanto aqueles
"nãos" me ajudaram.
Hoje
em dia também preciso tantas vezes dizer não e sei que muitas vezes o seu não
era um sim disfarçado.
Pai,
você nunca leu alguma coisa que escrevi, nunca se interessou por isso. Será que
agora? Será que ficou mais fácil agora?
sonia delsin

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