sábado, 17 de maio de 2014



MEU IPÊ FLORIDO

É engraçado com às vezes nos surpreendemos com pequenos detalhes.
Nunca eu sequer havia imaginado qual seria a música predileta de meu pai.
Foi depois de sua morte que descobri. Minha mãe disse que ele gostava daquela música: "Meu ipê florido".
Eu que cresci ouvindo ele assobiar "Silêncio" imaginava que fosse essa sua música preferida.
Por que as pessoas não se conversam mais enquanto é tempo? Por que pai você não procurou ser mais nosso amigo?
Por que você colocava o tempo todo uma barreira entre nós? Dos quatro filhos acho que fui ainda a filha que mais se aproximou de você.
Será que você procurava impor sua autoridade sobre nós para ser mais respeitado. Mas você era, pai! Como era!
Na infância nós o temíamos e corríamos para a mãe sempre à procura de defesa. Na adolescência também vivíamos na retaguarda com você.
Só depois de mulher feita é que eu descobri que você era capaz de amar e que nos amava. Do seu modo, do seu modo...
Não era um amor como eu queria, não era uma relação aberta. Mas como poderia ser se você não era essa pessoa aberta!
Descobri nos seus últimos dias de vida a pessoa atormentada que se escondia atrás de uma expressão sisuda.
Pai, eu amo você. Sei que de algum lugar você ainda pode ouvir "Meu ipê florido". Pode ler o que escrevo e pode ver que estou sofrendo com sua morte.
Gostaria de ter feito longos passeios com você, gostaria de ter tido longos papos sobre nós mesmos. Mas é tarde agora, você já se foi.
A mãe me disse que você sempre achou que seus filhos não o amavam como a amavam, mas é uma mentira; eu sempre o amei tanto.
Você foi o meu ídolo em minha infância.
Ouvi muitos "nãos" de você e naquele tempo não conseguia compreender. Só depois de ver os meus filhos crescidos é que posso entender o quanto aqueles "nãos"  me ajudaram.
Hoje em dia também preciso tantas vezes dizer não e sei que muitas vezes o seu não era um sim disfarçado.

Pai, você nunca leu alguma coisa que escrevi, nunca se interessou por isso. Será que agora? Será que ficou mais fácil agora?

sonia delsin

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