sábado, 17 de maio de 2014



ÉS UM SER ILUMINADO, MEU FILHO

Filho, eu não tive coragem de ir ver o carro.
Sei que a batida foi feia e que não sobrou nada. Seu belo carro virou sucata. Isto não importa. Bem materiais não valem nada perante uma vida.
Menino meu, saíste ileso de um acidente tão grave, e eu sempre soube que tenho um filho iluminado.
Quando soube que te acidentaste senti um gelo se derramando no meu corpo todo. Parece que me faltava o chão.
Mas logo soube que estavas bom.
Filho, quantas vezes te vi guerreando e és um bravo guerreiro.
Te vi sempre sorrindo, mesmo nas horas duras conseguias tirar um sorriso lá de dentro pra me oferecer.
Uma frase que me marcou a vida: mãe, eu aguento, vou vencer.
Quem tem um filho destes tem um tesouro.
Vales mais que qualquer ouro.
Importante amor da minha vida é que nada sofreste de grave. És mesmo um ser abençoado.

Filho, és tão, mas tão amado.

sonia delsin


NATAIS

Filho. De quatro que éramos restamos nós dois. É, nesta casa ficamos só nós dois.
Mas nem por isso vou deixar de trazer para o nosso lar o espírito natalino.
Hoje eu montei esta bela árvore e fiz um bonito arranjo.
Enquanto eu me dedicava a esta tarefa pensei muito nos natais passados.
Nos sonhos...
Nos nossos sorrisos. Nos presentes, nas festanças, nas comemorações. No significado que teve esta data tão especial.
Filho. Eu achei que tudo ficou lindo. Lindo, lindo!
Meu amor, ainda que eu um dia fique completamente sozinha nesta casa hei de montar uma árvore de natal.
Quero fazer isso sim, porque com certeza chegarão os meus netos e eles gostarão tanto.
Ah, eles terão os olhinhos brilhantes a olhar para ela, como você e seu irmão fizeram um dia.
Então eles iluminarão minha solidão.
Sei que a vida dá tantas voltas. Quem sabe do amanhã?
Mas hoje bateu algo no meu coração.
Uma vontade de sair andando pelo passado e recapturando o que já foi.
Mas o que já foi, já se foi e eu só posso deixar guardado. Virão outros natais...
Virão.
Eu tinha sim o peito apertado enquanto a montava, mas eu pensei que restamos nós dois e mesmo casado o meu filhão também sempre aparece por aqui. Ele também há de admirá-la. Lógico! E sua namorada estará aqui tantas vezes conosco e ela há de gostar, porque é tão delicada e amorosa. Também seu primo que é como se fosse um filho pra mim estará em poucos dias aqui em nossa companhia.
E podem chegar amigos, alguns parentes.
O que importa de verdade é que o amor existe e ele sobrevive a todos os temporais, todos os vendavais.
Que venham sim outros natais.
Hoje senti nostalgia, mas Natal é alegria.
Tenho tanta coisa boa em minha vida. Claro que tenho.

Nem devia falar da tristeza que senti, mas foi coisa de alguns momentos. Já passou. Mais um Natal se aproxima e um novo ano chegará muito em breve. Muita paz e muito amor pra todos nós neste planeta é o meu maior desejo.

sonia delsin


BEIJO-TE AS MÃOS

Hoje quando voltava pra casa eu comecei a pensar no passado. Em coisas que aconteceram quando eu era uma menina e quando já me tornava uma moça.
Pois vou contar aqui o que recordei.
Quando me deitava eu ficava rolando na cama e de meu quarto gritava ao meu pai pedindo a sua benção.
Ele respondia de pronto: -- Deus te abençoe, minha filha.
Depois eu gritava à minha mãe e ela respondia naquela vozinha doce dela.
Muitas vezes eu demorava para adormecer e pedia de novo:
-- A benção, meu pai.
E vinha a resposta. Ele não se zangava de eu ficar insistindo em pedir a benção. Acho que entendia minhas razões. Compreendia que eu necessitava do aconchego.
Em algumas noites eu pedia muitas vezes e eles pacientemente respondiam.
Enquanto estes pensamentos povoam minha cabeça eu senti umas mãos acariciando meus cabelos.
Pode ter sido apenas uma ilusão de meus sentidos, mas senti a proximidade de meu pai.
Ele partiu há tanto tempo. Mais de sete anos.
Senti as mãos deslizando em meus cabelos, fechei os olhos e me deixei levar. As lembranças eram tão suaves e a mão tão gostosamente eu sentia me acariciando.
Permaneci um tempo de olhos fechados, paradinha, quietinha. Nem dei importância ao fato de estar num ônibus.
Tão bom saber que mesmo tendo partido meu pai vive comigo, no meu coração, nas minhas lembranças.
Beijo-te as mãos, meu querido. Eu pensei e fui abrindo os olhos. Percebi que as pessoas conversavam, riam. Aquelas coisas que fazem parte do cotidiano.
Desci do ônibus me sentindo leve, amada. Como naqueles tempos de minha meninice, protegida. O Pai Eterno continua a me abençoar e o meu pai terreno vive em outro lugar, mas nunca deixou de me amar.


sonia delsin


NOSSA! COMO RECORDAR TANTAS VEZES É BOM!

Conversando hoje com um amigo comecei a recordar minha infância. Aquele tempo bom que ficou pra trás. Guardo lembranças lindas. Nossa, eu subia na ponta de qualquer árvore pra buscar cigarras (que pecado eu cometia); nadava em rio, lago, ia me banhar em cachoeiras; roubava frutas nos sítios e tantas coisas mais. Era mesmo um verdadeiro moleque. Aprendi a pescar, a soltar pipa, a fabricar minhas próprias pipas.
Rodava pião, jogava bolinha de gude, jogava malha. Nem sei hoje em dia se alguém tem conhecimento deste jogo.
Mas também amava bonecas e as brincadeiras das meninas. Eram rústicos meus armarinhos e panelinhas, mas existiam. Muitas vezes nossos brinquedos eram fabricados com sucata, mas eram bonitinhos. Caprichos de mamãe. Minhas bonecas eram feitas de pano. Lindas bruxinhas que enfeitavam meu mundo.
Um dos meus locais preferido para brincar era um enorme galpão que tínhamos na chácara onde morava. De um lado ficavam as cabras, do outro os porcos, e bem no meio meus pais e empregados descascavam e debulhavam milho.
O resultado disso é que se amontoavam muitos sabugos e com eles construíamos castelos.
Guardo tanta coisa deste tempo. Tanta.
Minha irmã e eu detestávamos quando éramos obrigadas a descascar as espigas de milho. Dava-nos alergia o pó da palha.
Jamais contaria em qualquer crônica ou conto tudo que vivenciei neste lugar encantador que morei, mas volta e meia gosto de contar alguma coisa.
Até hoje se comenta na família como eu era arteira e como caminhava o dia todo pela terra buscando ninhos, descobrindo animais em tocas, fuçando em tudo. Até picada por um enxame de abelhas eu fui. Fato que quase me levou à morte. Mas nem assim eu aprendia, porque estava sempre a aprontar das minhas.
Sinto carinho pela menina que fui. Fui? Nunca a deixei morrer dentro de mim.
Tem horas que ela bate palmas com meus feitos. E noutras ela me puxa as orelhas.
A verdade é que esta menina nunca me deixa desanimar.
Ainda estarei a contar do lugar que nasci. Claro! Se guardo tudo no fundo d’alma como a coisa mais preciosa deste mundo.


sonia delsin


O QUE A MINHA MÃE NÃO SABIA

Minha mãe chorava naqueles dias. Como chorava!
Ela disfarçava. Procurava sempre me trazer um sorriso quando adentrava em meu quarto, mas eu não era boba e via seus olhos inchados.
Não foi fácil para ela ver uma filha aos quinze anos definhando, sofrendo dores atrozes e quase sem esperanças de cura.
O que ela não sabia naquele tempo era que eu precisava passar por aquilo tudo. Meu ser necessitava. Fora a forma que o formão da vida achara para me preparar para o futuro.
Ainda chegaria um tempo mais duro e eu precisava estar preparada para ele.
Não foi só um o tempo duro. Foram tantos, tantos...
Um dia eu me perguntei por que precisei passar por tudo que passei.
Não quero viver de lamúrias, que isto a nada leva, só estou contando que algumas vezes não entendemos porque nossos entes mais queridos precisam sofrer.
É que nunca aprendemos de fato com as experiências dos outros, precisamos vivenciar.
Eu estava naquele tempo me fortalecendo, me preparando para o caminho que surgiria à frente. Eu que tinha perdido a capacidade de andar ainda andaria muito.
Hoje em dia eu sei o quanto minha mãe sofreu.
Foram tempos difíceis sim, mas imprescindíveis.
O que ela não sabia soube no decorrer da minha vida.
Agora ela pode até me ver sofrendo, mas sabe que sou forte e aonde é que vou buscar a força para seguir, e isto a tranquiliza. Ela sabe que não sou de desistir.
Escrevi esta crônica porque uma amiga comentou comigo que não quer ver os filhos sofrendo, que isto a machuca muito.
Contei a ela esta história e repasso aqui. Nós gostaríamos que os caminhos de nossos filhos fossem atapetados, e muitas vezes necessitamos vê-los pisando em espinhos. Mas não podemos mudar nada, senão nada eles aprenderiam.
O que podemos dar-lhes é o nosso amor e procurar sempre orientá-los, mas viver por eles não. Cada um tem o seu próprio caminho.


sonia delsin


UMA VIDA DEDICADA A ESCREVER

Eu era uma menina quando comecei a escrever poemas, redações, pequenos artigos. Na juventude enchi folhas e mais folhas de papel, mas poucos guardei.
Posso dizer que dediquei uma vida a escrever. E li muito também, posso dizer que metade do tempo passei lendo e outra metade escrevendo.
Em meio às obrigações do lar, a criação dos filhos e os deveres de esposa passei uma grande parte de meu tempo escrevendo.
Lembro-me que muitas vezes amamentava um de meus meninos e escrevia versos, crônicas, alguns artigos. Outras vezes brincava com eles e sempre com papel e caneta por perto. Eles se acostumaram a isso e nunca mexiam no que me pertencia. Sempre estive em meio a livros, cadernos, pois que nesse tempo não tinha uma máquina de escrever.
Escrevia todo dia. Todo dia, sem exceção. Só tenho uma tristeza de não ter tudo guardado. Quanto trabalho foi jogado fora.
Não via valor no que escrevia. Achava que nunca estava bom.
Eu tinha tantos contos escritos em folhas numeradas e lamento tê-los perdido.
Quando ganhei uma máquina de escrever comecei a datilografar alguns, mas era cansativo e já não era tão boa datilógrafa como nos tempos da juventude, quando trabalhava num escritório.
Muitas vezes desistia de alguns trabalhos inacabados e eles iam pra lixeira.
Depois ganhei um micro computador e como as coisas facilitaram. Contos nasciam todo dia, pequenos romances e os poemas que sempre adorei escrever.
É, posso dizer que passei grande parte da vida escrevendo.
E continuo. Quero continuar mais e mais.
Acho que só vou parar mesmo quando morrer. Cada uma nasce pra uma coisa nesta vida e chego a conclusão que nasci pra escrever.
Muitos de meus leitores insistem em dizer que são bons meus escritos e sinto que melhorei muito com o passar dos anos.

Nem sempre fui compreendida pelas pessoas por passar horas me dedicando a isso, mas não posso estar o tempo todo agradando aos outros, necessito agradar a mim mesma e sinto grande satisfação no que faço.

sonia delsin


UM VULTO

Eu comecei a ver o vulto aos quatro, cinco anos...
Ele usava um chapéu e era de estatura baixa.
Um homem adentrava o quarto da “noninha”.
Não o vi uma vez apenas. Na verdade foram repetidas vezes.
O fato não me assustava em nada apesar da pouca idade.
Até hoje quando penso nisso acho estranho a menina que fui aceitar tudo aquilo com tanta naturalidade.
O nono que não cheguei a conhecer vinha visitar a minha avozinha.
Eu não o via como um fantasma. Nada disso. E nem me assustava.
Sabia que ele vinha, que voltaria e aceitava tudo como uma coisa natural.
Os anos passaram. Continuei vendo e nunca mudou minha forma de pensar.
Um dia nos mudamos da casa e na nova ele nunca apareceu. Pelo menos eu não vi.
Minha mãe e eu falávamos do assunto. Ela também via e a nona dizia simplesmente: O “Queco” esteve aqui esta noite me visitando.
Era uma coisa que nem todos podem compreender.
Quando se diz que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que podemos imaginar...
Um vulto... era tão só um vulto...
Mistérios que nunca vamos compreender.


sonia delsin